Terça-feira, 05 de maio de 2009 em Salvador, os jornais noticiam, a ala D do shopping Iguatemi desabou, o dique transbordou, houve mais alguns alagamentos, ruas e avenidas estão congestionadas. O dia mal começa, e prestes a descer do ônibus Barra 3, antes das 9:00 h da manhã para ir ao trabalho, o ladrão aparece, entrou pela porta da frente enquanto o ônibus esperava a sinaleira abrir no contorno da Garibaldi próximo ao Monumento Clériston Andrade, veio com um revólver marron escuro, não sabia se era de brinquedo ou de verdade e estava velho, enferrujado. Melhor não arriscar. Ele anuncia o assalto, vai passando pelo corredor em direção ao fundo do ônibus, grita dizendo que é para passar o celular e a carteira, não lembro mais o que ele falou, bateu o nervosismo. E se alguém reagir e o ladrão disparar acertando uma bala na cara de um? Eu que já estava em pé para descer do ônibus, sentei-me novamente numa cadeira desocupada, a mais próxima de mim.
São muitos pensamentos ao mesmo tempo. Escondo o celular, atiro pela janela para pegar depois? , o ladrão está no fundo do ônibus, acho que ele não vai notar se eu colocar o celular atrás desse senhor que está ao meu lado tentando esconder seus pertences também. E a minha carteira? , preciso retirar o cartão do banco, senão o ladrão vai clonar e vai roubar minhas economias que estão na poupança, vejo o cartão do ônibus, este está cheio de passagem, vai dar muito trabalho até receber outro, deixa eu esconder. Minha habilitação, também dá trabalho tirar segunda via, parece que é caro. Mas a carteira vai ficar vazia, eu só tenho dois reais em dinheiro, e se o ladrão conferir, ver que não tem nada, só os dois reais? Ele pode ficar nervoso ao perceber que eu limpei a carteira e me dar um tiro na cara com o revólver velho, enferrujado. Vou deixar o cartão do banco pra ele ver que eu não limpei a carteira. Ele já está voltando, parou do meu lado com a bolsa aberta pendurada no ombro, não lembro se falou diretamente comigo, mas lembro que me olhou, entreguei meu celular de quase dois anos de uso (completaria no próximo mês), entreguei como quem entrega uma história, um diário, pois no celular tinha contato de pessoas queridas, anotações e mensagens especiais, aquelas que a gente sente pena de apagar, além de fotos antigas que de vez em quando também serviam para matar a saudade de pessoas que passaram por mim ao longo desses quase dois anos de uso do celular. Bem, entregado o celular chegou a vez de passar a carteira com o cartão do banco e os dois reais, joguei tudo na bolsa dele.
Missão cumprida, fiz o que o ladrão pediu, levou a carteira e o celular. Droga, ele nem conferiu o que tinha ou o que não tinha na carteira, podia ter tirado meu cartão! O ladrão desce depois de roubar o ônibus, as pessoas começam a comentar, uma senhora grita chamando por Deus, um senhor responde que é tarde para chamar por Deus, tem que chamar é a polícia. O homem que estava sentado ao meu lado permanece com o celular e a carteira na mão, ou seja, o ladrão não o roubou, deveria estar nervoso também por estar agindo sozinho e não reparou em todos, o homem começa a comentar comigo que eu não deveria ter entregado minhas coisas, agora já era, vou tomar um curso para aprender a lidar com ladrão. Percebo que tinha uma colega do trabalho sentada no banco da frente, o nervosismo não tinha deixado vê-la antes.
Depois que o ladrão vai embora vem outros pensamentos. Por que eu não agi assim ou assado, e se eu conversasse, tentasse explicar que meu celular era um modelo antigo da vivo, de placa ainda, e que ele ( ladrão) não iria conseguir repassar, que a bateria era velha, e que todos os dias precisava ser recarregado, e que só a mamãe aqui sabia lidar com esse filho mimado? E o ônibus, por que eu não acordei mais cedo e peguei outro, ou por que não cheguei um pouco mais atrasada no ponto para pegar outro ônibus? E se eu tivesse pegado aquele ônibus amarelinho que não faz o contorno para entrar na rua do meu trabalho? Desceria no ponto e atravessaria a Avenida Garibaldi, não passaria pelo contorno, não pegaria uma sinaleira fechada e não seria roubada.
Enfim, não teve incenso nem banho de macassá, arruda, alecrin, cravo e canela, (ingredientes de um banho que tomei na véspera) que afastasse esse espírito ruin do meu caminho nesta terça- feira, 05 de maio de 2009. Mas pelo menos a oração que eu fiz ao meu anjo da guarda serviu para não tomar um tiro de uma arma velha, enferrujada. Sorte ou azar do cidadão que assaltou o ônibus, Salvador não é segura, as estatísticas a assalto a ônibus aumentam esse ano de 2009, já tinha visto isso nos jornais, agora eu sou mais uma vítima com uma história para contar, e com as chuvas, parece que os assaltos cresceram, não só aos ônibus, mas motoristas também estão sendo abordados dentro de seus carros enquanto ficam presos nos engarrafamentos causados pela chuva. E o cidadão é assaltado no início do dia indo trabalhar para pagar suas contas e os impostos, incluindo aqueles que lhe dão o direito à segurança, assim como eu, sei que muitos trabalhadores e estudantes que estavam fazendo a mesma viagem perderam a sua terça-feira, 05 de maio de 2009.
Não esqueçam portanto de pegar o guarda-chuva antes de sair de casa, ele pode ser usado como uma arma contra o ladrão, o meu estava comigo mas eu nem tive esse pensamento no meio de tantos, brincadeira. Entreguei o meu vivo, mas fiquei com minha vida!
Isso vale uma bela crônica. Quem sabe um curta!
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